domingo, 10 de abril de 2016

Pedaços de diário- Há 100 dias mudei o meu prato!



Hoje cumpro a meta dos 100 dias "livre de carne no meu prato!" Após mais de meio ano noutro país tive contacto com outras mentalidades, informei-me, senti milhares de coisas, muito intensas, que mexeram demasiado comigo. Dada a minha sempre proximidade ao mundo animal senti que deixou de fazer sentido, p'ra mim, continuar a alimentar-me do mesmo modo.

Tudo o que tentei foi não me rotular para que quando e se vacilasse (porque 23 anos como carnivora- e não omnívora porque comia carne com tudo- pesa muito) não ouvisse julgamentos alheios. Cortei radicalmente na carne, depois o peixe e aos poucos vou reduzindo nos lacticínios e ovos. A primeira dificuldade é comer com a família. Felizmente, vejo os meus parentes a aceitar devagarinho tudo isto, o que me deixa eternamente grata.

O meu estilo de refeição é feito mediante aquilo que me faz sentir bem comigo e me deixa deitar à noite, de consciência limpa. Entrei nesta corrida para poder fazer o que consigo para evitar sofrimento àqueles que chegaram primeiro que eu, no sentido de proporcionar um mundo sustentável aos próximos. No entanto, não me é natural, é uma evolução lenta mas que me deixa extremamente positiva por saber que estou a ser capaz, e a meu tempo, reduzir o meu impacto neste mundo que não é apenas meu.

Além de, constantemente, ouvir "não tens pena das plantinhas?", o meu preferido é "e as crianças que passam fome em África também não te preocupa?" Porque por evitar comer animais agora eu tenho de salvar o mundo inteiro... Porque não começam todos a fazer uma parte? É que, curiosamente, tudo isto geralmente surge de gente que desperdiça comida e nem a palavra "voluntariado" conhece... 
Faço tudo o que consigo para ajudar o que/quem me rodeia; passa por mais do que esta opção que vos conto, mas isso são outros mil... Obviamente não sou a pessoa mais prestável do mundo, não sou a salvadora da pátria e nem é lógico que me cobrem isso só porque decidi deixar de comer carne!!
Alterei o necessário p'ra me aceitar, e ficar em paz com o "meu Eu" e honestamente, faço-o de coração. Se na minha óptica, a vida animal mexe comigo, a emoção é minha e o direito é meu.

Não sou extremista e penso que não influencio ninguém à minha volta a fazê-lo, porque foi uma necessidade minha e apesar de me custar a aceitar que achem que a alimentação deles é melhor que a minha, respeito. Portanto, agradecia que quando me convidam p'ra jantar não me levem a uma churrascaria... A não ser que me sirvam um belo dum seitan grelhado ;)

terça-feira, 8 de março de 2016

Não quero flores!

Precisamos de um dia para sermos lembradas? A minha resposta feminista e assertiva é: SIM.

Não, não é vacilar na defesa de igualdade de direitos por haver um dia da mulher e não do homem. É mostrar, realmente, que já fomos apedrejadas, julgadas e levadas com menos respeito que o sexo masculino e que pelo menos, num dia, eu vos posso esfregar na cara, seus machistas (como se não o fizesse várias vezes-confesso), que, nós, mulheres, somos IGUALMENTE IMPORTANTES. E até digo mais: somos feitas p'ra aguentar um mundo muito mais cruel que o vosso, e isso não é digno de um sexo fraco, é característica dum género forte .
A todas as mulheres, mães, irmãs, filhas, gente... uma grande homenagem, por vivermos num mundo que nos aceita há bem pouco tempo, e que, bem lá no fundo ainda nos rotula em muitas atividades, profissões e posturas que "não são dignas de mulher".

Tenho de puxar a sardinha à minha brasa (ou vice-versa): Sras Engenheiras, p'ra vocês que valem tanto quanto um Sr Engº, que se lembrem sempre, que quando um homem menospreza o vosso trabalho por não portarem uma pilinha entre as pernas ou por serem "carinhas larocas em demasia para aquele tipo de trabalho", é porque nem ele está resolvido consigo próprio e isso faz dele "muito pouco homem", portanto... Mas, sempre podem mandar-lhe a mala à testa, também, nada contra!

Não quero com isto dizer que não existem mulher más e/ou que são tão "machistas" quanto certos homens... valem o que valem, e não me cabe a mim julgá-las, mas que sejam felizes, ou não sejam, ou o que lhes apetecer, só não me lixem a cabeça...

"Por todas as Capazes, nós não queremos flores, queremos poder viajar sozinhas, sem medos, sem julgamentos... Como qualquer ser humano, temos o direito à vida, a NOSSA vida, e ao respeito pelas nossas decisões."
E hoje, nem vou lavar a loiça...

segunda-feira, 7 de março de 2016

Pedaços de diário - Consequências de uma vida sem pessoas tóxicas

O segredo para um vida feliz, segundo 90% das pessoas que me responderam, é o amor...
Apesar de eu ser uma eterna romântica, que acredita piamente na qualidade do amor (ainda existente) e em todas as formas de afeto, creio que, genuinamente, o que me faz conseguir ser feliz é ter eliminado todo o tipo de toxicidade na minha rotina: desde pessoas, emoções ou hábitos.
Cada vez mais acredito na energia entre as pessoas, na espiritualidade de cada um e naquilo que podem partilhar com o próximo. Isso manifesta-se tanto negativa como positivamente. Considero-me uma pessoa extremamente comunicativa e fácil de ler e, portanto, recetiva daquilo que têm (ou não) p'ra me dar.
Fui feliz e infeliz; agora sou equilibrada (acho o melhor termo), consciente daquilo que me faz bem e resolvida com aquilo que no presente me satisfaz, mas que a longo prazo me mata aos poucos, bem delicadamente, numa forma quase cruel. A única forma de eu atingir o equilíbrio, aceitação e tornar-me grata por tudo que a vida tem p'ra mim foi eliminar todas as pessoas tóxicas, todas as emoções que poluem o meu estado de espírito e re-educar os meus hábitos, fazendo uma rotina fora da zona de conforto, em função daquilo que me é vital, que me faz deitar de cabeça leve, consciente dos meus princípios e valores. O que me deu o maior pico de gratidão à vida foi a pureza dos gestos, a clareza das palavras, a partilha entre a gente sem qualquer maldade, de pé no chão e cabelos mal amanhados.
Então, aquilo que palpito (e não aconselho porque não sou mãe de ninguém, nem psicóloga) é p'ra tentares afastar-te das pessoas que têm mais a apontar-te do que a agradecer-te; p'ra saires dos locais onde não consegues soltar uma gargalhada honesta; p'ra deixares as práticas que no fundo te magoam e mais do que olhares à tua volta, olha no coração de quem se conecta a ti. Desafio-te a experimentares observar as pessoas p'ra quem não olhavas e a leres-lhes os olhos, uma e outra vez. Dá uma hipótese a quem te faz querer ser alguém melhor, todos os dias. Abandona tudo aquilo que tanto amas, mas que te magoa, e que já não tem nada a dar-te, por muito casmurra e persistente que sejas. Larga tudo aquilo que te impede de limpar a tua consciência e começa de novo.
Não te assustes, és capaz de sair magoado(a) algumas vezes, mas provar-te-á o quão desnecessário isso é na tua vida, e ela pode ser tão bonita contigo feliz e equilibrada a jogar com ela!

sábado, 5 de março de 2016

A vida não espera

A vida não espera. Não vai estar à espera que coles os teus cacos... Por muito que te espante, o mundo vai continuar a girar, as horas vão continuar a passar, as estações vão mudar e tudo seguirá o seu rumo, quer tu o faças quer não.
Não é porque o teu mundo desabou que tudo irá estagnar para que possas ter o teu tempo de retiro, meditação e eventual recuperação. Todas as oportunidades que deixares fugir não irão voltar; todos os abraços que recusares não serão os mesmos que receberás quando decidires recompor-te e isso é um facto.
Lá porque tudo que construíste foi abalado e os teus olhos teimam em não secar, a vida não vai esperar por ti. E se ninguém te disse essa crueldade do mundo, digo-te eu: a vida não tem tempo para se preocupar contigo e dar-te um tempo, enquanto o tempo dela passa. Não, nada vai acalmar e não te darão obstáculos mais fáceis enquanto te (re)constróis só porque reza a lenda que "depois da tempestade vem a bonança"; não esperarão menos de ti só porque tentas renascer, e abre os olhos, ninguém espera mais nem menos do que aquilo que dás. Não têm sequer que esperar alguma coisa. Nada, ninguém, nenhuma coisa tem de esperar.
Não é por não atingires os teus sonhos que o vento se vai cessar e tudo correrá contigo ou sem ti à luta, garanto-te. Duma vez por todas, a vida não acalma quanto tu te perdes. Tudo segue e tu ou segues, ou somes.

"A tua alma rege-se a cinzas mas é o fogo que queima e aquece, e cinzas não passam disso mesmo. pedaços de algo queimado, morto, e ninguém quer saber daquilo que já não existe...

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Quando abrires os olhos verás



No momento em que a tua essência olhar verá que cada pedaço de mim foi teu, mais do que alguma vez foi meu.
Todo o meu corpo latejou ao ver-te partir, mas foi a única forma que encontrei para te dizer o quanto te amava. Se não te amasse tanto ter-te-ia pedido para ficares, preso na ilusão de nunca mais os meus olhos deixarem de ver os teus. Se não te vivesse tanto, pedir-te-ia para me viveres só a mim, do modo mais egoísta que o amor deve ser. Mas não. Deixei-te ir quando me apercebi que o amor já não chega e ele deve bastar por si mesmo.
Decidi magoar-te agora, para um dia não me desfazer em pedaços, e ver em ti alguém em quem apenas paira uma alma que outrora me tinha embriagado de paixão. Sim, porque bebi cada palavra tua, saboreei cada beijo teu e perdi-me no calor do teu toque. Mas enquanto os tempos iam passando sentia-te a ir, a perderes a respiração cada vez menos vezes com o que ambos criamos um dia. De cada vez que essa pessoa voltava a mim, era como que se estivesse drogado de ti, viciado em algo que proximamente voltaria a desaparecer ou apenas levitaria por perto; mas que iria teimar em ir novamente. Essa pessoa, que quando num sopro voltava, vinha cada vez menos frenética e intensa mas com o suficiente para me deixar amá-la.
O ato mais romântico que poderia ter cometido, e também o mais doloroso, foi ter-te perdido, para um dia, não te sentir perdida e com isso, perder-me na raiva de não te ter deixado ir.


Quando abrires os olhos verás que se te deixei partir foi por puro amor.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Só faltou noutra vida

Faltou tentar o impossível. Faltou-nos morrer e voltar a nascer com a esperança de nos encontrarmos de novo. Foi isso, faltou-nos tentar numa outra vida.
Recriamo-nos e moldamo-nos até à exaustão, percorremos caminhos em fogo e ultrapassamos limites intransponíveis, todos eles de mão e alma entrelaçadas. Juntos encontramo-nos em lugares, pessoas e emoções. Vimos tudo que havia para ser visto e levamos as nossas gargalhadas desajeitadas bem alto, como naquele dia de em que te via em alvoroço com a tentativa de comeres churrasco de faca e garfo. Estavas linda, no teu jeito pouco corriqueiro, com o cabelo mal amarrado, o pijama mal vestido, e como tudo te ficava tão bem… Faltou garantir que isso não desmoronaria e que seria intemporal.
Mas o amor genuíno não é amar-te e querer que me faças feliz, é amar-te tanto que só te quero feliz, do meu lado enquanto for o sensato. Levaste-me a não querer mais nada e a perder-me em ti, rumando apenas em direção a ti. A ti. Não a nós.
Cego de romantismos batalhei pelo equilíbrio, onde eu pesei mais, e tu na tua luta, tentavas acompanhar numa dança que te era estranha. Era como se pedisse a um freestyler de rua de anos, para me acompanhar num tango, e ele tentasse e morresse a tentar podendo nunca lá chegar. Tentamos dançar jazz e salsa, e os dois cedemos até acabarem os esforços e se impor o ritmo rotineiro de ir até onde o amor morre porque alguém já não morre de amores.

Eu soube que acabou quando já não havia nada para acabar, não por falta de tentativas mas por escassez do que faltava tentar.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Copo ainda trémulo de ti

Restava um copo meio cheio na mesa junto da cama. Agora era só ele.
Meditava um corpo num canto da cama, com os cotovelos apoiados nos joelhos e de olhar colado na água ainda trémula…
Chovia lá fora e Matias sabia que a maior tempestade estava do lado oposto da janela, presa naquele quarto onde há tão pouco eram dois. Instantes antes tinham gritado pelo nome um do outro. Instantes antes tinham-se amado e caído num sono profundo. Pelo menos era o que Matias achava. Agora era só ele, ou o pedaço dele ambulante que ficou, pois quando ela partiu, tomou um trago de água e levou consigo muito mais do que memórias e histórias. Deixou uma divisão totalmente vazia.
Amanhecia devagar, do mesmo modo que Matias se ia matando emocionalmente, preso numa vivência que terminara. Vida macabra que o prendara com tudo o que ansiava, e o apunhalava agora, retirando-lhe o mesmo, num só gesto amargo. Cru.
Sentia a garganta fechada e, alcançando o copo do seu lado, esforçava-se para acreditar que com um gole de água, tudo melhoraria. De lábios entreabertos, os olhos ergueram-se à mínima luz que, envergonhada, entrava pela janela. Como queimava esse delicado raio de sol! Ardia vivamente! Foi aí que o Matias entendeu que, se ele olhasse, depois da chuva, havia um ligeiro brilho alcançável.

Abre-se a porta chorosa. Interrompem-se, por um segundo, os pensamentos com olhares ardentes de raiva, arrependimento e dor. Chocam os dois corpos e revêem-se as almas, como se lhes arrancassem a pele e os unissem debaixo da mesma. Matias sorri-lhe entre um beijo aliviado, “Sem ti, nada meu em mim restava”. 

Carta a quem eu era quando deixei de ser.

Miúda, ela vai partir e tu vais deixar de ser filha. E eu quero-te avisar que ela vai partir esta noite. Não precisas de ir buscar o pijama ...