quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Copo ainda trémulo de ti

Restava um copo meio cheio na mesa junto da cama. Agora era só ele.
Meditava um corpo num canto da cama, com os cotovelos apoiados nos joelhos e de olhar colado na água ainda trémula…
Chovia lá fora e Matias sabia que a maior tempestade estava do lado oposto da janela, presa naquele quarto onde há tão pouco eram dois. Instantes antes tinham gritado pelo nome um do outro. Instantes antes tinham-se amado e caído num sono profundo. Pelo menos era o que Matias achava. Agora era só ele, ou o pedaço dele ambulante que ficou, pois quando ela partiu, tomou um trago de água e levou consigo muito mais do que memórias e histórias. Deixou uma divisão totalmente vazia.
Amanhecia devagar, do mesmo modo que Matias se ia matando emocionalmente, preso numa vivência que terminara. Vida macabra que o prendara com tudo o que ansiava, e o apunhalava agora, retirando-lhe o mesmo, num só gesto amargo. Cru.
Sentia a garganta fechada e, alcançando o copo do seu lado, esforçava-se para acreditar que com um gole de água, tudo melhoraria. De lábios entreabertos, os olhos ergueram-se à mínima luz que, envergonhada, entrava pela janela. Como queimava esse delicado raio de sol! Ardia vivamente! Foi aí que o Matias entendeu que, se ele olhasse, depois da chuva, havia um ligeiro brilho alcançável.

Abre-se a porta chorosa. Interrompem-se, por um segundo, os pensamentos com olhares ardentes de raiva, arrependimento e dor. Chocam os dois corpos e revêem-se as almas, como se lhes arrancassem a pele e os unissem debaixo da mesma. Matias sorri-lhe entre um beijo aliviado, “Sem ti, nada meu em mim restava”. 

sábado, 28 de novembro de 2015

#188 High in Love

O som está alto. Pessoas vibram em gritos no meio das luzes e do ar quente se propaga de corpo para corpo. Saltos, mãos no ar, ritmo e música num uníssono que sai das vozes de todos. Estamos todas, umas com as outras!
Dançamos quase numa descrição do que ouvimos, damos gargalhadas altas e fortes, um tanto ou quanto trapalhonas, mas que caracterizam a nossa disposição. Abraços e brindes olhos nos olhos. Fazemos promessas eternas, de coração, seladas com gritinhos histéricos e felicidade na alma.

Miragem. Os meus olhos encontram os teus, e o teu sorriso abre o meu. As saudades que eu tinha de ti e ainda ontem os teus braços eram a minha cama. Beijo-te e tu beijas-me de volta, ergues-me no ar e rodopias-me como se fosse o teu troféu. A música alta entra em nós e o mundo gira demasiado rápido à nossa volta enquanto nos vivemos. Fico presa naquele momento em que o teu rosto fica de todas as cores que te atingem das luzes. Drogas-me de amor... Olá, onde é que andaste a minha vida toda?


Ironicamente, o diabo mostra-me o sorriso dum anjo e acho que ele sabe disso no momento em que me abraça, quase num pedido de desculpas por ter demorado tanto a chegar e a ficar. 

Seguras a cerveja e deixas-me dançar e extravasar, porque tu sabes que aquele instante é meu e ninguém mo pode tirar. Tens esse dom, de saber quando ir e vir. Contemplas-me e esperas-me de volta... Atropelado por um retorno esmagador de alegria agarrada ao teu pescoço enquanto arfas para não entornar nada. Vês-me antes de eu me ver e rendes-te a mim, comigo entregue a ti. Perdida em ti, quero saber... Ficas comigo todos os dias em que formos felizes?

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

#187 Nem que em outra vida a gente se encontre

Há histórias que precisam de mais de uma vida p'ra terminar, e quando me refiro a esse ponto final é a dar certo. Há vidas que não cabem nas nossas e há vivências que não podem "checar" intemporalmente às dos outros. Existe um tempo e um espaço para o equilíbrio se dar, e ingrata a experiência de quando falhamos num desses termos: ou o espaço ou o tempo não são os apropriados.

Sou apologista de saborear cada trago como se fosse a última gota e isso tem consequências futuras, mas próximas demais. Más! Minto. Exaustivamente degradantes- até ao ponto de ser desumano.

Somos feitos de matéria mundana e somos tão mais que isso: concebemos ligações com o próximo (seja de qualquer tipo ou género) que te fazem entrar numa apoteose sinistra. Eu, individualmente, jogo num sistema de entropia radical: habituo-me facilmente à desordem, que acaba por me acalmar e definir. Sou extremista e pouco ligeira, tanto que qualquer que seja a consequência, eu não morro sem tentar.
Ultimamente, sinto esse sabor amargo e, sim, "tem tudo p'ra dar merda". Mas agora, é o sabor do mundo, são pessoas, energias e emoções que fazem com que encontre em mim, todos os dias, alguém um pouquinho melhor.
Seria hipócrita se não reconhecesse a bomba relógio na qual medito há quase meio ano, e tenho consciência de que o final se aproxima: que da última vez que os olhares se cruzarem, que o abraço se der e que as palavras saírem, irão partir-me em pedaços; a última vez que a água salgada banhar a minha pele irá fazer-se sentir como uma faca e a brisa que outrora me beijou, irá secar os meus olhos. Nunca isso será motivo p'ra deixar de sentir as coisas tão fortes quanto as sinto agora, de me entregar a cada um e a cada local novo de forma tão intensa e só desse modo a adrenalina me faz sentir viva!!! Agora. Se fosse de outro jeito não era tão real. É por ser tão fugaz que vale o que vale. Agora, em que cruelmente, tudo é momentâneo e "passageiro", agora é assim, e não há solução.

Não estava pronta (mas quem estaria?) p'ra abrir tanto os braços e sentir tudo a fugir-me. Mas eu prometo que "mais tarde a gente se encontra". Nem que seja numa outra vida.
"A gente sabe que deu certo quando já não temos por onde fugir e a única solução é deixar ir!"

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

#172 Carta ao meu futuro amor

Olá meu amor do futuro.
Escrevo a alertar-te do que te espera, nesse corpo onde vives e a minha alma irá viver(?!).
Irei dar-te o melhor e mais puro de mim, mas prepara-te também para o meu pior: o mau feitio, a teimosia e as crises bipolares de te amar tanto e de querer de seguida o meu espaço.

Terás de te habituar às minhas fracas horas de sono; de acordares a meio da noite comigo a ter pesadelos, e de me levantar 20 vezes para ir fazer alguma coisa porque me vou esquecer se não fizer na hora..

Podes até estranhar, mas na hora de apagares a luz eu vou pedir-te para que deixes algo aceso, dado o meu eterno medo do escuro. Vou vacilar na hora de saíres da cama e pedir p'ra ficares, mas serei a primeira a arrancar-te comigo para irmos passear ou rumarmos à praia, tomarmos um copo e dançar até de madrugada, um com o outro, com os teus olhos e lábios a beber dos meus. 

Percebe que sou impulsiva e tenho um filtro completamente furado no que me sai pela boca, mas nada do que te possa dizer é com rancor. Vou precisar que na maior parte das batalhas, me abraces e me cales, para acalmar o furacão. Eu vou reclamar, mas não me soltes. Nunca.

Vou dançar enquanto cozinho, vou-te abraçar a toda a hora e pedir-te a mão. Vou rir alto, fazer a dança do quadradinho no meio de uma loja e entrar em êxtase na rua sempre que vir um cão. Vou parar o carro para ir ver se o gajo atrás de mim não atropela o gato, e vou chegar a casa com um pássaro que partiu a asa para me ajudares. Isto tudo enquanto a alça do portátil me tenta esganar, as chaves na boca e não tenho mais mãos para segurar as marmitas. Um festival, portanto!

Raras serão as vezes que me possas encontrar a partilhar os meus problemas. Sou péssima em jorrar lágrimas explicativas, porque o que me dói calada, dói ainda mais quando o pronuncio. Por isso insiste em fazeres-me sentir bem, nem que seja com um abraço a dizer mentiras do tipo "Vai ficar tudo bem!".

Dou um braço por ti, defender-te-ei como uma leoa que ruge pelo seu felino; e above of all farei de tudo para que tenhas paz comigo, contigo e connosco, "sem filtros", porque deitar a cabeça na almofada com o coração limpo não tem preço. E como sou de extremos "gosto tanto de ti que até mete nojo!"

Esta é a carta ao meu futuro amor.
-editado em Agosto 2015, Novembro 2015, Outubro 2016

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

#152- Fica onde te encontras

Fica com quem te dá um arrepio na coluna de cada vez que te toca. Fica com aquele que te tira de ti, que te faz vibrar de ansiedade para que chegue e te amarga a alma de cada vez que se vai. Nesse ritmo agridoce mesmo, de picos definidos e oscilantes.
Fica com quem te faz bem, mesmo que por vezes te apeteça mandar-lhe um chinelo à cabeça, fica com alguém que no fim te abrace nos seus braços imensos como se o mundo todo se escondesse atrás dele. Como se pudesses ficar ali uma vida inteira, ou um momento, não interessa, mas que seja indefinido. Não quereres que seja definido, porque seria limitar as coisas e o que saboreiam é muito mais do que isso...
Fica com alguém que te desafie, te dê a necessidade de ser sempre melhor, de aprender, conhecer e viver. Vive com quem te guarda nas mãos em conchinha, que não te aperta demasiado, nem te solta completamente e aproveita!! Não coloques prazos, entraves e desculpas; aprende a vivê-lo, a sentir o que te pode dar e agarra-o como se fosse o último segundo, mesmo sabendo que não é.
Fica com alguém que te faz sair mais, rir mais, pensar menos e querer mais. Pega em cada pedacinho dele e teu e joga aos dados: arrisca. Olhem-se os dois e gostem-se; gostem-se ainda mais em segredo, numa coreografia só vossa, um tanto ou quanto desajeitada, mas singular. Deixa que ser torne irresistível e apenas... dança!
Deseja alguém com quem o silêncio não seja constrangedor e sim relaxante. Que te tire o cabelo do rosto, te sorria com os olhos e te leve exatamente na viagem que imaginas.
Não fiques com quem te dá segurança, amor e conforto. Ou melhor, fica, mas tu nem imaginas o que perdes. Não queiras alguém só p'ra te dar a mão e estabilidade. Quer alguém, não que te dá a mão p'ra te ajudar a entrar na água fria, mas que te pega ao ombro e se joga dentro contigo.
Procura mais, procura uma partilha de vivências que te faça ser exatamente quem tu gostas e queres ser. Procura-te em alguém, não a tua cópia, mas alguém que tenha um pedaço que queiras ter, e fá-lo ser teu.

Fica com alguém que te faça gostar de ti e te faça gostar ainda mais de ti com ele.
E se um dia não der mais, que o olhes com um sorriso e te lembres de tudo que partilharam com harmonia... que ficaram juntos até onde podiam ficar, da melhor forma que podiam ter feito.

"I knew you were trouble when you walked in..."

terça-feira, 22 de setembro de 2015

#122 "Young, wild and free"- eu preciso do mundo

Sabes quando te sentas no cais da Lagoa e tens o mundo todo à tua espera? Ali. Prontinho para te receber na tua pura essência, na loucura duma experiência que pode ser agora ou a tua vida toda...
Somos feitos à imagem de "nascer-estudar-formar-casar-filhos-morrer" e tudo que foge a isso é um "humanóide" com a matemática meia pirada. Se por um lado não me cai bem o parasita da sociedade que "nem fode nem sai de cima" (e só gasta espaço e $$ públicos, se me permitem), também não me contento com ambições medianas e sentimentos que não saibam a tudo. Felizmente fui criada num seio onde me incutiram que as barreiras são os homens que as criam e os mesmos que as desfazem, e por isso, eu quero poder reinventar-me em cada lugar novo, reescrever o "meu-eu", fazer da Terra a minha casa...
Quero pisar a areia de todas as praias, ver o céu de todas as perspetivas; ficar noites sem dormir para poder trabalhar e usufruir do sabor do mundo; nadar em todos os mares; ver luzes de festas e sentir o som alto no peito; gritar "ao eco" na luz do por do sol atrás do morro; ouvir as gargalhadas em todos os idiomas; andar descalça na calçada de livro em punho a reler relatórios; viver com muita pressa todas as culturas e fazer-me de mundo... Encontrar-me em pessoas, lugares e emoções. Comigo.
Não vou ser hipócrita e dizer que quero ficar sozinha o resto da vida, mas só estou disposta a partilha-la com uma "alma-gémea", com alguém que me leia a dançar ao vento no meio de trilhos e sabores exóticos e que por outro lado, quando trabalho, me trave o vício do dedo roído na boca... Que seja esse "bipolar-medido" igual a mim; que aguente dormir tão pouco quanto eu, por querer fazer sempre tanta coisa... Que me acorde para ir para o laboratório atolada de café, e que me acorde também de prancha em punho; que não me trave e não me impeça de ir quando tiver de ir; acima de tudo: que não me amarre as asas...
A Vida é efémera para ser desperdiçada em tempos lentos, por isso eu quero o meu relógio muito rápido, seja de mão dada com alguém, ou de abraço dado com o mundo. E de coração, sinceramente, essa é a minha última preocupação... Porque como já dizia o outro "quem aprende a surfar, não se contenta mais em ficar na areia".

Essa é a vida à minha maneira, e sei que pode ficar muito ao lado do que esperam de mim, mas foda-se aos desejos alheios. As cicatrizes são marcas das decisões de quem as toma...

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

#73 Verdade ou consequência?


Recusei-me a ver o que estava diante de mim, a observar o verde e azul, a sentir o areia, a cheirar o vento. Obriguei-me a ir, ficando. Vi-me presa num lugar ao qual irei sempre pertencer, sem poder saborear o resto do mundo todo. Baixei os braços, e decidi deixar-me ir, e dei por mim tão viva...
A cor é viva, a gargalhada é viva, o sorriso é vivo, o mar e a terra são vivos, a entrega é VIDA!
Abri os olhos e o peito, inspirei todo o ar que conseguia duma vez e senti que não chegava... Senti que não era suficiente, que nada chegava, e ambicionei mais.
Quase desisti de ter a experiência da minha vida, estive a um pequeno estímulo de sair a correr do aeroporto para os braços da minha mãe e retomar a minha zona de conforto. A verdade é que quis ficar, e a consequência disso é não me arrepender sequer por um segundo por ter sofrido tanto com a minha decisão!
Todos os dias a saudade magoa, mas agora é a hora de viver com isso, na "linha bamba"...
Se irei voltar? Parte de mim, nunca, mas quando olhar a lua, sei que será exatamente igual deste lado do oceano. Agora, vou ali ser feliz e não volto (a mesma).
É a minha vez, agora sou eu, só eu.

Carta a quem eu era quando deixei de ser.

Miúda, ela vai partir e tu vais deixar de ser filha. E eu quero-te avisar que ela vai partir esta noite. Não precisas de ir buscar o pijama ...